25 junho 2010

Me falta o velho

Dia 23. Festa de aniversário de 66 anos. Se estivesse entre nós, é claro. Vibraria comigo nos jogos. E a gente ia ficar palpitando, menos que minha tia - óbvio. E trocaríamos idéias, e comeríamos pipoca e tudo mais que um pai e uma filha podem se fazer durante a Copa.
Isso aconteceria porque quando criança, você saia comigo aos domingos de manhã e íamos no América, clube a duas quadras de casa. Torcíamos para boas jogadas, geralmente pro dono da casa, afinal, durante muitos anos você era jogador de lá. Divertido, mesmo que eu não entendesse quase nada.
Então, essa seria uma Copa bacana -porque agora, cada dia que passa, me pareço mais com você. Explosiva apenas em raros momentos, nos demais, sempre na reconciliação, sempre na conversa, sempre no jeito. E o jeito de torcer - me lembro - é exatamente igual.
Queria conseguir falar mais, não consigo. Tem vezes que é assim mesmo, o que fazer? Sei apenas que nos dias que se seguem fico apenas com aquele sentimento, que tento ignorar, finjo que não sei do que se trata, mas que se chama saudade. Já diz uma música da Ana Carolina, Tanta Saudade:
"Mas restou a saudade
É , pra ficar
Ai, eu encarei de frente
Ai, eu encarei de frente, menina
Se eu ficar na saudade
E deixar
Saudade engole a gente
Saudade engole a gente, menina"

Mas acho que a música mesmo que descreve é a cantada pelo Diogo Nogueira, Espelho:

"Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que ainda hoje faz
E me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás
Eh, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu
sem ter maldade
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com Deus por me levar meu pai
"


Te amo. Sempre e além.

obs: não fiquei de mal com Deus já que existe tempo para tudo, de viver e de morrer. Porém confesso que também não fiquei muito feliz.

22 junho 2010

Gosto muuito de ler blogs na internet. Fotografia, jornalismo, pessoais. Enfim, tenho uma boa coleção de leituras na rede. E vez ou outra existem coisas que realmente me chamam atenção, que transformam meu emocional.
Isso aconteceu hoje quando eu li o texto escrito no "Um sonho com você". Com o nome, "A força do amor", o meu amigo de anos, Jorge faz uma declaração de amor à Bruna e também uma reflexão muito bonita. Fiquem com um trecho do último parágrafo:
"(...) Não duvidem que o amor possa mudar nossa vida. Não duvidem nunca do amor, porque ele é sempre origem e destino de todos nós. Podemos nos enganar por aí, achando que o nosso jeito de ser e pensar é o certo e vamos conseguir convencer todos a pensar como nós. Típico pensamento masculino. Pelo contrário: nosso jeito de pensar e ser vai nos levar à solidão completa. Amar significa estar disposto a aceitar a verdade do outro, e tomá-la como verdade própria .(...)"

É. É exatamente isso. ;)
Um abraço pro casal e um beijo pro meu amor.

15 junho 2010

Declaração

Não sei sobre o que escrever. Já falei sobre futebol no blog do Danilo Silvestre e no blog da Jé Tozetto . Tá bom que em um fiz um pedido de boas jogadas - que combinemos que essa Copa anda meio fraquinha de jogadas Bonitas com bê maiúsculo mesmo - e em outro coloquei o Clip Oficial da Copa. De fotografia meus textos se encontram agrupados no Anne Fotografia e no Fotografia DG. Então o que falar?
Amor. Quero apenas fazer uma declaração simples e singela a ele que me tira o fôlego todos os dias, que faz eu morrer de saudade sempre que nos despedimos, que me faz ter frio na barriga só de vê-lo. Ele que me compreende, que me ajuda, que entre me faz querer ser melhor e que faz as coisas para que tudo entre nós fique bem, mesmo ainda que dificuldades. A você, André Luan, um EU TE AMO não basta. Mas é um começo. ;)

Fotinha do adesivinho do carro (que por sinal tá "meio" sujinho). Tifa, eu e Deh.

Vaivem

Estreiando o novo layout do blog - que por sinal está FANTÁSTICO - quero dizer que quase que abandonei esse blog. O exercício do jornalismo tem se mostrado em outro ritmo para minha pessoa e de outras formas, especialmente a fotografia. Então, não se preocupem se esse blog vire menos notícia e mais filosofia - é da minha natureza atual. Ando mais pensante do que falante e isso, definitivamente, faz uma grande e boa diferença na profissão e na vida.
Então, é mais fácil me encontrar no Anne Fotografia, no blog do Danilo Silvestre e no Fotografia DG. Mas mesmo assim vou procurar aparecer aqui com mais frequencia, já que esse é meu novo recanto. Prometo.
Logo posto fotinhas. E textos, óbvio.
Beijos

24 fevereiro 2010

Haiti. As outras réplicas.

Artigo de Eduardo Galeano

Pat Robertson,teleevangelista de ampla audiência, explicou claramente o assunto do terremoto. O pastor de almas cantou a bola: as placas tectônicas não têm nada a ver. O terremoto é uma consequência do pacto que os negros haitianos haviam feito com o diabo há dois séculos. Satã os libertou da França, mas o Haiti se converteu em um país maldito.

O bom Pat não está sozinho. São muitos os que acreditam, ou ao menos suspeitam, que a liberdade foi o pecado que condenou o país à desgraça perpétua. O Haiti não seria um país maldito se tivesse aceitado seu destino colonial.

Mas, maldito por quem? Os negros haitianos haviam humilhado o Exército de Napoleão Bonaparte, que nessa guerra perdeu 18 oficiais, e a França cobrou caro a expiação. Durante mais de um século, o Haiti pagou à França uma indenização equivalente hoje a quase 22 bilhões de dólares, por ter cometido semelhante sacrilégio.

O novo país nasceu endividado e arruinado, arrasado pela guerra da independência, que a tantos matou ou mutilou, e também arrasado pela exploração desapiedada de seus solos e de suas pessoas extenuadas no trabalho escravo. A prosperidade da França havia sido a ruína do Haiti. Todo o país se havia reduzido a uma imensa plantação de açúcar, que aniquilou as florestas e secou a terra. Os negros livres herdaram um reino sem sombra e sem água.

Nestes dias, a imprensa divulgou resenhas históricas. Supõe-se que ajudam a entender o que acontece. Em quase todos os casos, nos contam que o Haiti foi o segundo país livre das Américas, porque havia seguido o exemplo da independência dos Estados Unidos. A verdade é que não foi o segundo. Foi o primeiro, o primeiro país realmente livre, livre da opressão colonial, sim, mas também livre da escravidão. E foi o primeiro, exatamente porque não seguiu o exemplo dos Estados Unidos: o Haiti foi um país sem escravos 60 anos antes dos Estados Unidos, cuja primeira Constituição estabeleceu que um negro equivalia a três quintas partes de uma pessoa.

E o Haiti nasceu, por isso, condenado à solidão. O Haiti difundia, apenas com seu exemplo, uma peste contagiosa. Nenhum outro país reconheceu sua existência. Todos lhe deram as costas. Nem sequer Simon Bolívar, quando governou a Grande Colômbia, pôde recordar que devia sua glória aos haitianos, porque eles lhe haviam dado navios, armas e soldados, quando estava vencido, com a única condição de que libertara os escravos.

Outra réplica do terremoto: são muitos os que creem, e não poucos a afirmarem, que toda a ajuda será inútil, porque os haitianos são incapazes de se auto-governarem. Levam na testa a marca africana. Estão predestinados ao caos. É a maldição negra.

Pelo mesmo motivo, os Estados Unidos não tiveram outro remédio que invadir o Haiti em 1915. Robert Lansing, secretário de Estado, explicou então que “a raça negra é incapaz de se governar a si mesma e tem uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização”.

O presidente Woodrow Wilson, prêmio Nobel da Paz, fervoroso admirador da Ku-Klux-Klan, assinou a ordem de invasão, para restabelecer a ordem, evitar o caos e, de passagem, já que estavam aí, cobrar o que o Haiti devia aos bancos norte-americanos. As tropas foram para ficar apenas um curto período de tempo, mas acabaram ficando 19 anos. Não puderam restabelecer a escravidão, como haviam feito no Texas e na Nicarágua, mas ao menos impuseram um regime de trabalho forçado que era bastante parecido, e enquanto durou a ocupação militar proibiram que os negros entrassem nos hotéis, restaurantes e clubes reservados aos estrangeiros. Também proibiram que o presidente do Haiti cobrasse seu salário, até que emendou a sua conduta e presenteou o Banco da Nação ao City Bank.

Quando as tropas se retiraram, deixaram um país bastante pior do que aquele que haviam encontrado.

Oxalá, não se repita a história, agora que as tropas norte-americanas retornaram, trazidas pelo terremoto, e sobre as ruínas exercem o poder absoluto.

Terra desolada, gente desesperada: o Haiti viveu mal a sua vida, quase sempre submetido a ditaduras militares. Ditadura após ditadura: para que calem os muitos e mandem os poucos.

Um dos ditadores, Baby Doc Duvalier, escapou da fúria popular em janeiro de 1986. Fugiu, acompanhado por milhões de dólares, no avião militar que o presidente Ronald Reagan lhe enviou, em agradecimento pelos serviços prestados.

Tempos depois, por ocasião do terremoto, Baby Doc anunciou, do exílio, que doaria ao Haiti uma parte do dinheiro que havia roubado. Foi comovedor. Quase tanto como o gesto do Fundo Monetário Internacional, que decidiu emprestar ao Haiti 100 milhões de dólares.

A experiência demonstrou, na América Latina e em todo o mundo, que os especialistas internacionais são tão úteis quanto os ditadores militares, talvez mais, e são muito mais apresentáveis, porque matam para ajudar as suas vítimas.

No Haiti, como em muitos outros países, foram o Fundo Monetário e o Banco Mundial que pulverizaram o poder público e eliminaram os subsídios e as tarifas alfandegárias que de alguma maneira protegiam a produção nacional de arroz. Os camponeses que viviam de sua produção foram convertidos em mendigos ou balseiros, jogados nas ruas ou aos tubarões, e o Haiti passou a importar o arroz, esse sim subsidiado, esse sim protegido, dos Estados Unidos.

Graças aos bons serviços destes filantropos internacionais, o terremoto aniquilou um país aniquilado: sem Estado, sem instituições, sem hospitais, sem escolas.

Sem nada? Sem nada de nada?

Em 1996, o deputado alemão Winfried Wolf, que passava alguns dias no Haiti, consultou as estatísticas internacionais. Havia escutado milhares de vezes que o Haiti é um país superpovoado. Surpreendeu-se ao saber que a Alemanha está quase tão superpovoada quanto o Haiti. Mas admitiu: “Sim, o Haiti está superpovoado... de artistas”.

Winfried percorria os mercados sem se cansar nunca de tanto admirar as criações da arte popular deste país. As haitianas e os haitianos têm mãos magas, que revolvem o lixo e do lixo tiram ferro velho, cristais quebrados, madeiras gastas, coisas que parecem mortas, e essas escultoras e escultores lhes dão vida e alegria.

O Haiti é um país jogado no lixo, terra desprezada, terra castigada, que agora parece, depois do terremoto, mais morta que nunca. Restaram mãos magas capazes de ressuscitá-lo?

Um dos sobreviventes, que perdeu mulher, filhos, casa, tudo, respondeu à pergunta de um jornalista: “E agora? Agora choro. Todas as noites choro. Aqui, na praça onde durmo, choro. E depois me levanto e caminho. Sem destino. Caminho. Sigo. Busco a vida. Não me perguntes por quê”.

[Recebi esse artigo via e-mail, pela Lista Social-L. De qualquer forma me pergunto porque as pessoas ainda me perguntam porque eu acho ele absurdamente um dos melhores jornalistas que conheço e porque tenho muitos livros dele na estante de casa. Ele sabe o que diz, ele sabe o que pensa.]